Água não pode ser objeto de disputa política

Fica difícil entender a razão da interrupção, por parte da Sabesp, do envio de água para Guarulhos. A justificativa da estatal paulista é a de que o município não economizou água suficiente no decorrer dos últimos meses, o que levou a uma medida drástica que já atinge mais de 1 milhão de habitantes

20 de março de 2014
Fica difícil entender a razão da interrupção, por parte da Sabesp, do envio de água para Guarulhos. A justificativa da estatal paulista é a de que o município não economizou água suficiente no decorrer dos últimos meses, o que levou a uma medida drástica que já atinge mais de 1 milhão de habitantes
Por Alencar Santana Braga *

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Ocorre que nem o SAAE teve acesso aos dados que provocaram a suspensão do fornecimento de mais 390 litros de água por segundo, tampouco foi avisado com clareza e antecedência sobre a decisão da Sabesp.

O prefeito Sebastião Almeida foi muito enfático ao lembrar que Guarulhos já economiza o recurso há bastante tempo, uma vez que recebe menos água do que o necessário, por conta das limitações impostas pela companhia estadual. Pelas contas do SAAE, Guarulhos precisaria de 4,5 mil litros de água para atender toda a população, mas só recebia da Sabesp apenas 4 mil litros por segundo, o que já se traduzia em um racionamento permanente a alguns bairros.

Com os atuais 3,6 mil litros por segundo, determinados após o anúncio da Sabesp na semana passada, a cidade toda agora está sendo forçada a conviver com o racionamento – embora o governador Geraldo Alckmin insista que ele não existe no Estado.

Em 2010, o nível do sistema Cantareira atingiu a marca de 98,8% de sua capacidade, mas desde então esse índice vem caindo drasticamente, sem que houvesse qualquer tipo de ação do governo estadual para se preparar para uma crise de grandes dimensões. O que o Alckmin ainda não conseguiu explicar é o porquê de estarmos diante da maior crise hídrica da história de São Paulo, com um reservatório que hoje opera com apenas 15% de sua capacidade.
Alckmin e seus assessores, entre eles a presidente da Sabesp, Dilma Pena, apostaram no período de chuvas e deram, com perdão da expressão, com os burros n’água.
A situação só não é mais grave, porque cidades grandes como Guarulhos e Campinas estão sendo sacrificadas para garantir o abastecimento pleno à capital paulista, algo que deve durar pouco se não houver uma melhora nos níveis dos reservatórios que abastecem o Estado. É claro que temos que levar em consideração as condições climáticas atípicas, que neste ano reduziram consideravelmente o volume das chuvas. Porém, não se pode ignorar a falta de investimentos no setor ao longo das últimas décadas, que contribuiu sobremaneira com o sufoco a que o cidadão paulista está sendo submetido. Nenhuma alternativa nova de captação de água pela Sabesp foi construída nós últimos anos.

Seria muito melhor e demonstraria grandeza por parte do governo do Estado, se o governador convidasse todos os prefeitos da região metropolitana e demais regiões atingidas pela estiagem para uma reunião a fim de tratar do assunto. Colocar o problema na mesa e juntos buscarem uma solução, o que não podemos admitir é somente poucas cidades serem prejudicadas para salvar a incompetência da Sabesp. Isto é covardia com o povo de Guarulhos.

Utilizar a água, um bem essencial, dádiva da natureza, para fazer disputa política é algo lamentável. Tais atitudes políticas devem ser banidas. 

O governo do Estado ao agir assim, se acovarda e tenta transferir a responsabilidade a outros, como se não fosse responsável pela falta de investimentos no abastecimento de água de todo o Estado. 


* Alencar Santana Braga é advogado, deputado estadual pelo PT e presidente da Comissão de Infraestrutura na Assembleia.

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