Onde colocar a barbárie? Outros julhos virão

24 de agosto de 2015

Algo estranho pairou no ar no início deste mês de julho.  Após o calor incandescente das fogueiras juninas, um frio arrebatador congelou e enrijeceu nossas almas.  Ficamos atônitos como talvez tivessem ficado nossos ancestrais  silvícolas, quando o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, ateou fogo em uma cuia com aguardente. Que velho diabo poderoso, não?  Ou mesmo boquiabertos como os espantados espectadores que testemunharam aquela garrafinha de Coca Cola  despencando lívida e faceira do céu, no filme –  Os Deuses Devem Estar Loucos – (1980),  direção de Jamie Uys,  ou mesmo as bombas de napalm no Vietnã, embaladas pelo som inconfundível de Richard Wagner na película escatologicamente insuperável que foi – Apocalipse Now – (1979) dirigido por Francis Ford Coppola.  Assim começou julho, mês de tão poucas festividades, mês ressentido, que muitas vezes tem que acolher em seus modorrentos dias, o restante das festas  de junho que não couberam no mesmo,  atropelando o calendário,  tantas foram as fogueiras, os balões, as quadrilhas, as guloseimas com gosto de infância.  Julho, o mês que no memorial católico romano, entre tanto(a)s se celebra São Tomé (gêmeo em aramaico) ou Dídimo (gêmeo em grego), aquele que não acreditou que Jesus voltara da mansão dos mortos e pagou caro por isso.  Diz a escritura, que teve de colocar o dedo nas feridas do Mestre.  Tremeu de medo e professou sua fé: “Eu creio”.

Também nós trememos de medo esses dias.  Um medo aterrorizador;  um medo de voltarmos às cavernas, de andarmos de quatro, de nos tornarmos de repente antropófagos, de voltarmos no tempo longínquo e decidirmos fazer justiça com as próprias mãos, um medo de abolirmos o incesto e irmos para cama com nossas mães e irmãs,  pais e irmãos, um medo de já não mais darmos uma sepultura digna aos mortos e decidirmos esquartejá-los e guardá-los nas geladeiras,  para os fotografar quando desejarmos e enviarmos despuradamente via whatsapp para nossos parceiros e amigos.

O medo deste julho não mais se afastará de nós.  Medo de que todas as conquistas da civilidade se escoem no veneno mortífero que se esvai das línguas, penetrando as entranhas, circulando nas veias, amortecendo o cérebro e calcinando a sensibilidade, a delicadeza e a elegância.  Medo de que os fascistas, sempre os fascistas, subvertam a vida democrática, a pacífica convivência, as conquistas progressistas que muito nos custaram e estabeleçam o reinado do medo e da intolerância.  A história muito tem a nos ensinar.

Já antes deste julho, dias atrás, um político paulista pontificou que teríamos “que ver a presidente Dilma sangrar”.  Como sacerdote de um culto ancestral, não fugiu à regra de que sem sangue não há salvação. Com tanto barbarismo gratuito, relembro um dos filmes de minha vida – Laranja Mecânica – (1971), de Stanley Kubrick.   A escola fez alunos.  Nos primeiros dias deste mês, mais precisamente entre 2 e 3,  a besta fera da ignorância desfraldou suas garras.  Quis atingir certeira,  antes de tudo, as mulheres, pois a covardia não tem escrúpulos nem decoro.  Seus tentáculos pretenderam fisgar personalidades públicas – mulheres –  de nosso dia-a-dia.  Dilma, a Presidente e Maria Júlia Coutinho, a Maju, foram, na arguta teorização do antropólogo René Girard, não o bode, mas o “holocausto expiatório”. O círculo do ódio quer completar sua volta.  É preciso oferecer uma vítima no altar da hipocrisia, do cinismo deslavado e mesquinho.  Hoje, mais do que nunca, os fins justificam os meios, sejam eles quais forem. A carne do holocausto não deve apenas ser queimada, tem que ser trucidada antes.  Disseminando o ódio,  eles, os eleitos,  sabem que poderão apropriar-se do terreno que não tiveram a competência de amealhar.  Dessa forma não medem esforços e veneno para desqualificar seus objetos de desejo, seja na política, seja na vida artística televisiva, como no presente caso da Maju.   Quem o faz, não tem a comiseração e a sensibilidade de saber da dor que os atos de preconceito carregam consigo e a profunda angústia  moral e espiritual que deles emanam.   Mas, dirão alguns, bem feito!, foi mesmo para machucar.  A charge de Dilma em despudorada posição,  ultrapassa toda possível compreensão, pois parece que quem a idealizou esqueceu-se que também nasceu do ventre e das entranhas de uma mulher.  E o mais irônico é que se chega à conclusão de que esse feito é obra de um ser do sexo feminino!  Que mulher é essa, que nessa figura de mal gosto expõe toda a sua nudez e fragilidade?  Em que recôndito de sua alma se instalou essa dor tão camuflada e agora exposta?  Ah, sim, e quanto ao garoto esperto e americanizado às antigas, que  rompeu o  cerco da segurança devida a uma Chefe de Estado e esbravejou seu casto linguajar?  Esses jovens mimados ainda causarão muitos desgostos aos papais.  Deve ser no mínimo interessante enxergar o Brasil com as lentes de Tio Sam.  Só faltava o mancebo ter ou estar estudando  com  bolsa do Governo Federal. Seria cômico.  Deveria levar uma advertência dos professores gringos, para aprender a não cuspir no prato em que comeu.  Aliás, uma dúvida: de quem seria

a competência constitucional para encaminhar de ofício a defesa da Presidente?  Advocacia Geral da União , Ministério Público Federal, Polícia Federal,  ou outro órgão da União?   Quem irá colocar o dedo nessa ferida fétida?  Também não foi poupada nossa meiga Pérola Negra do JN , a Diva do Tempo,  a esfuziante e sorridente Maju.  Eu que a conheço de longa data e sempre fiquei admirado com sua rara inteligência e graça,  que conheço seu esposo, seu irmão,  e também  Zilma e João, seus pais, irmãos de caminhada,  sei o quanto essas injúrias foram folhas ao vento.  Sim,  pois a verve, a força, a militância e a fé dessa família não se abatem com considerações deslocadas no tempo e descabidas no espaço de nossas mentes . Maju continuará nos iluminando toda noite com seu sorriso e sua beleza estonteantes.   Quanto à presidente, não a conheço pessoalmente,  mas  respeito sua trajetória,  e desejo a força incansável dos bravos,  dos fortes,  dos que lutaram,  e em determinado momento histórico, esmagaram a cabeça fluída da besta fascista.  Por fim,  como sou daqueles que insistem em ter esperança,  sei que outros julhos virão.  E como Tomé, depois das provas,  reafirmo:  eu creio.

 

Renato Bicudo

 

São Paulo, 4 de julho de 2015.

Dia Internacional do Cooperativismo

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